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Todos têm uma opinião sobre Kanye West. É praticamente impossível ser indiferente em relação a um artista tão polêmico como Yeezy. Seus comentários sobre moda, política e sobre o próprio gênero do rap são as causas das mais diversas reações nas redes sociais. Mas o que acontece quando um artista como Kanye encontra Deus e decide abandonar um outro projeto musical para se dedicar a um álbum gospel? Talvez não seja algo inédito na história da música, mas certamente é um arco de redenção no mínimo distinto. A jornada do herói (como descrita por Joseph Campbell) é quase completa por Kanye em “Jesus Is King”.

A primeira faixa, “Every Hour”, conta com o coral do Sunday Service, uma espécie de culto particular de Kanye, que após a apresentação no festival Coachella se tornou um fenômeno. É importante mencionar uma particularidade desse álbum: Yeezy não precisou repaginar sua produção e sua sonoridade para falar de sua fé. Corais, pianos, e até mesmo alguns temas sobre Deus, sempre estiveram presente na obra do artista. Um de seus primeiros hits, “Jesus Walks” já quase que profetizava a fase atual de Kanye. Era necessário que a primeira faixa fosse uma intermissão, que apresentasse o conceito do álbum. “Every Hour” cumpre esse propósito, sem deslocar o ouvinte da coerência da obra de Kanye.

Após o coral, vem a pausa. “Selah” é o nome da segunda faixa, e reflete exatamente o que esse álbum é na carreira do artista. A expressão aparece diversas vezes na Bíblia Sagrada e vem do hebraico. Expressa o sentido de pausa ou interlúdio. Kanye aqui se preocupa em conectar seus anseios de outrora com sua fé. Se em “Yeezus” ele fala sobre “New Slaves”, em “Jesus Is King” canta abertamente sobre João 8:36. “Se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres”. O coral que brada “Halellujah” cria tensão e, ao mesmo tempo, constrói o sentido que Yeezy propõe para a faixa de forma belíssima. Aqui temos o produto de um ser humano que encontrou na fé as respostas para suas angústias e questionamentos. E isso requer uma pausa. A partir daqui, temos um novo Kanye.

“Follow God” traz uma batida sampleada de “Can You Lose By Following God”, de 1974. Por apenas 1 minuto e 45 segundos que parecem pouco para a marcante bateria da música, Kanye reflete sobre como viver uma vida cristã, e, claro, suas dificuldades. No final das barras, ouve-se o sample da canção dizendo “stretch my hands to you”, fazendo uma referência à música “Father Stretch My Hands Pt. 1”, do álbum “The Life Of Pablo”, de 2016. Quase que como uma continuação, “Follow God” deixa de lado a produção de Metro Boomin da canção de 2016 e é marcante justamente pela autenticidade da batida “old-school” de Kanye. E, ao invés de ser continuada por um sample de “Panda”, em “Jesus Is King” se ouve algo incomum nas músicas de Kanye: um violão.

Para falar de sua família e sua preocupação com sua filha, Yeezy apresenta “Closed On Sunday”. A referência do nome da música se dá por conta do restaurante fast-food americano Chick-fil-A. A franquia é conhecida por ser declaradamente cristã e fecham seus estabelecimentos no domingos, liberando os funcionários para cumprirem o mandamento bíblico de ter um dia na semana para se dedicar à família. Kanye aqui está preocupado com sua terra e sua família, falando até sobre a educação de seus filhos na fé. Novamente, temos um homem maduro e que reconhece suas responsabilidades perante Deus, e não uma criança mimada de anos atrás.

Em uma faixa que lembra muito a sonoridade clássica de Kanye, mais precisamente o arranjo de “I Wonder” (dessa vez completo com arpejos), Yeezy apresenta “On God”, feita com o produtor Pi’erre. A expressão que dá título à faixa significa um juramento, como “juro por tudo”. Sem deixar o público se esquecer, um coral prepara o caminho para a faixa seguinte, “Everything We Need”. Em um exercício mental, e quase que um monólogo, Kanye supõe até o que Eva deveria fazer com a maçã após comê-la. Por meio da batida mais lenta, que relembra algumas faixas do último disco, “Ye”, Yeezy vai falar sobre o contentamento e o renascimento de um novo homem “after the storm inside”, como diz a letra. Os vocais de Ant Clemons complementam uma sonoridade mais próxima da oração que do trap.

Clemons continua sua colaboração na faixa seguinte, “Water”. Na Bíblia, a água é mencionada diversas vezes, com muitos significados diferentes. Desde a transparência mencionada na canção em “I promise I’m not hiding anything” até um dos sacramentos do cristianismo: o batismo. A água purifica e limpa no batismo, o que pode sugerir o que Kanye quer dizer com essa faixa. O próprio Jesus diz que é a água viva, e quem beber dEle, não mais terá sede (João 8:14). Uma linha de baixo acentuado dá a progressão da música, que não chega a ter rimas, mas a parte de Kanye atua mais como instrumento, que tenta reproduzir a pureza da água. O coral está novamente aqui, em uma espécie de lado B de “Jesus Is King”, com músicas menos no estilo rap de “Follow God” daqui para frente.

Uma das jóias deste disco, “God Is” é uma carta aberta de Yeezy sobre sua nova fé em Jesus e suas confissões. O sample vem de uma música homônima de 1979, do Rev. James Cleveland. Por mais que conte com o sample, o baixo mais acentuado reforça uma marcação que permite Kanye cantar em uma voz rouca, quase que chorosa, sobre o que ele agora vê como verdade. Em um propósito de contar a todos sobre Jesus, a frase “Everybody, I will tell ’til the whole world is healed” define essa faixa com precisão. Fazer um álbum sem nenhum palavrão, completamente limpo, e falar sobre Jesus é uma revolução para qualquer artista. E o que Kanye West tem a perder não é pouco. Voltando para “Jesus Walks”, lançada em 2004, Kanye diz que “They said you can rap about anything except for Jesus”, se referindo a o que as rádios diziam a ele. Nunca foi fácil mudar o rumo de uma carreira, ainda mais uma tão conturbada como a de Kanye. Porém, “God Is” revela uma paz de espírito do rapper com sua fé, mostrando que não se importa nem mesmo com rimas afiadas, visto que aqui ele está cantando, e não rimando.

Para “Hand On”, Fred Hammond canta a introdução, que é seguida por Kanye rimando mais uma vez. Não é uma questão de imprevisibilidade, mas sim de um bem-estar e tranquilidade de Kanye em fazer o que bem entender enquanto estiver confortável, afinal, agora é verdadeiramente livre, como afirmou em “Selah”. Usando o sample das vozes de Hammond como um clássico órgão de igreja que acompanha suas rimas, Yeezy denuncia que os cristãos serãos os primeiros a julgá-lo. Ele mesmo reconhece o terreno que está pisando, e mesmo assim está disposto a enfrentar o que ver pela frente. Kanye nunca foi o artista que foge de uma luta, sendo essa uma de suas principais qualidades, ou o seu maior defeito. “I deserve all the criticism you got, If that’s all the love you have, that’s all you got” revela que Kanye assume a culpa pelos erros do passado e que está bem em ser criticado por eles, afinal ele merece.

Surge um som de alarme. Uma chamada de atenção. Um toque de recolher. Antes de encerrar o que tem para dizer em “Jesus Is King”, Kanye tem uma última notícia para dar ao ouvinte. Uma recomendação que começa em “Use This Gospel”, fazendo referência ao texto de Efésios 6:10-18. Usar o evangelho como proteção é uma das passagens mais conhecidas do apóstolo Paulo na Bíblia, e Kanye se sente no dever de cantar sobre ela na penúltima faixa do disco. E logo em seguida, o rapper retoma um dos temas abordados ao longo das outras 9 músicas: a dificuldade de ser cristão. Ele sabe isso melhor do que ninguém. Com apenas o toque que dá início à faixa, Kanye alterna seu verso com Pusha T e No Malice. Entra o solo de saxofone de Kenny G. Marcante, intenso e solitário. Por alguns segundos, só se ouve o instrumento que trabalha o tema harmônico da faixa, que incide na batida completa da música. Somente a mente de Kanye na produção poderia resultar uma música como “Use This Gospel”.

Com apenas 49 segundos para encerrar seu álbum, Kanye canta em “Jesus Is Lord” um manifesto acompanhado de instrumentos de metais. Inspirado no texto bíblico de Filipenses 2:10-11, Kanye afirma que todo joelho deve se dobrar à Jesus Cristo. Terminando o álbum de forma poderosa e elevada, Kanye não foge da plasticidade encontrada nos sons do gospel, como os metais de orquestras, os corais, o órgão e, principalmente, o ministro de louvor, no caso ele próprio.

Kanye West trata de sua fé sem rejeitar sua identidade e, com isso, cria um álbum que será eternamente lembrado como o ponto de virada na vida de um artista conhecido por polêmicas e intrigas. Não demorou para vermos o impacto de uma obra dessa na cultura e principalmente no rap, visto que várias músicas estão no topo das paradas como a Billboard. Se Kanye vai seguir sendo um homem de Deus, é difícil afirmar. Mas com “Jesus Is King” surge uma nova fase de um artista que se reinventou graças à sua nova concepção de fé e crença. Em seu nono capítulo, a discografia do rapper fica mais rica em conteúdo e sonoridade, ao mesmo tempo que mantém a coerência de suas referências anteriores.

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