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Por Josias Pereira

Uma das séries mais aclamadas de todos os tempos, Game of Thrones se aproxima dos seus dois capítulos finais. E cresce a expectativa e também a apreensão dos fãs sobre os rumos que a série está tomando. Eu, particularmente, um fã confesso dos livros de George R. R. Martin percebo de forma nítida o distanciamento entre o papel e o que está sendo proposto na TV. Todavia compreendo que existem parâmetros de audiência que ditam o ritmo do conteúdo.

George Martin ao levar sua obra para a TV também tinha total consciência do fato. Quando tentou estabelecer uma carreira como roteirista de televisão, ele enfrentou uma batalha com a emissora CBS por conta do live-action “A Bela e a Fera”. “Havia constantes limitações, e isso me desgastou”, disse o escritor em entrevista à revista Rolling Stones. Enquanto lutava para trazer à tona uma fera faminta por sangue e com conflitos de comportamento, a CBS não queria ver sangue e nem as cenas sexuais ou políticas que permeavam as ideias do autor.

Game of Thrones virou a joia prima de Martin e o trouxe de volta ao ambiente televisivo. Porém, apesar de muitas ideias do escritor serem mantidas, a fase final da série, especialmente as duas últimas temporadas, tem se mostrado bastante desconexa e com histórias se desenrolando em uma velocidade que não faz nenhum sentido ao observador assíduo.

Obviamente, Game of Thrones é uma série bastente minuciosa, tornando-se um campo aberto de teorias e discussões sobre o futuro dos personagens e da história. Mas o temor que muitos telespectadores conservam é de que o desfecho da história se mostre o mais simples e decepcionante possível. Aproveitando um tema que foi discutido no podcast “Tempo de Série”, do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, deixo uma reflexão (ouça clicando aqui). Podemos ter um fim que vários fãs sentiram ao ver Lost, a primeira série que se desenvolveu no Hype de uma Internet ainda um quanto arcaica, mas bastante participativa. Foi um tremendo “bafafá” quando as pessoas descobriram que todos os personagens que viviam na ilha estavam mortos, mas não sabiam disso e não tinham memória dos acontecimentos. Eles precisavam se reencontrar e lembrar do elo que os conectava para finalmente encontrar a paz. 

Game of Thrones não combina com o óbvio e é por isso que o nível de cobrança tem sido alto. Mas este é o problema que temos presenciado com a necessidade de se atender os desejos do fã, o “fan service” que conflitua com a lógica, mas que também traz a satisfação e o êxtase imediato, como o que aconteceu em “Vingadores: Ultimato”, um filme de contemplação.

É possível que nos dois próximos episódios de Game of Thrones tenhamos a sensação de contemplação em uma série de muitos conflitos morais e políticos. Porém é preciso nos prepararmos para possíveis arcos de personagens que tiveram suas histórias obliteradas pela necessidade de se terminar a série “correndo” (e olha que aqui eu não vou nem entrar no mérito da batalha que sentenciou o Rei da Noite em 40 minutos após sete temporadas, e algumas situações de caráter dúbio da série, como a cena da Sansa falando que tudo que ela viveu foi essencial para não ser um “little bird”. As mulheres de Hollywood, como a atriz Jessica Chastain, caíram matando).

O próprio Martin, em entrevista a “60 Minutes”, deixou escapar um certo desapontamento com o rumo das coisas. “Eles (roteiristas) têm alguma coisa em particular que não tem nada a ver com a história, mas que se resume a ‘Bem, esse personagem tem um Q rating (nível de audiência) muito alto, então vamos dar a ele muito mais coisas para fazer'”, disse.

“A série não foi completamente fiel. Caso contrário, teríamos que ter mais cinco temporadas”, afirmou o escritor, reconhecendo também sua parcela de culpa (e que eu e outros leitores do livros sempre lamentamos). “Alguns dos desvios, é claro, é porque eu tenho sido lento com esses livros. Eu realmente deveria ter terminado tudo há quatro anos. Se eu tivesse feito, talvez estivesse contando uma história diferente aqui”, concluiu.

Agora é aguardar pelos próximos dois domingos para sabermos o que a mente engenhosa de Martin e dos roteiristas da HBO preparam para os milhões de fãs que acompanham o jogo dos tronos desde 2011, quando foi ao ar o primeiro episódio da série no dia 17 de abril. Não há dúvidas de que é impossível agradar a todos, mas vamos torcer para que tenhamos um desfecho épico.

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