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O termo “O rock está morto” já foi dito por vários artistas ao longo do tempo. Mas provavelmente a declaração mais enfática veio de Gene Simmons, fundador da banda Kiss. Ele fez a afirmação em 2014, com todas as letras, e só reforçou toda a discussão que já existe há muito tempo. E chegou a hora de admitir que com o crescimento do hip-hop, pop e EDM, o rock está devidamente morto.

Eu sei, é difícil de admitir. Mas pense comigo. A indústria da música mudou (e mudou rápido), sem dar chance para quem demorou para se adaptar. O rock demorou para admitir o advento da internet, e isso inclui o streaming. Um exemplo disso é a banda AC/DC e os Beatles, que só colocaram suas músicas nos serviços de streaming em 2015. A princípio, o AC/DC também só colocou seus álbuns para venda no iTunes em 2012, muitos anos depois do boom do serviço.

Enquanto Angus Young pensava e repensava se deveria colocar as músicas da banda online, as paradas estavam dominadas pelo pop e pelo rap. No próprio ano de 2015, as canções do topo da Billboard pertenciam a artistas jovens como Drake, The Weekend, Taylor Swift e Selena Gomez. Porém, esse fenômeno não foi exclusivo daquele ano. Pelo contrário, se desenhava um novo padrão de consumo de música que não incluía o rock’n roll.

Evidências numéricas são o que não faltam. Basta olhar, por exemplo, as mais tocadas no Spotify em 2018, que são, em grande maioria, rappers e artistas de pop como Ed Sheeran e J Balvin. Ou os discos mais vendidos nos últimos 15 anos. As mais pedidas nas rádios, no mesmo período. Mas muito mais do que não aparecer nas paradas de sucesso recentemente, o rock também perdeu a capacidade de influenciar e ditar o padrão de uma geração. Seu impacto cultural nas gerações futuras está cada vez mais reduzido à nostalgia do que à moda.

Hoje, o centro do hype e da moda está nos jogadores de basquete, rappers e influenciadores. Esses são os “rockstars” de hoje em dia. Sim, o termo é o mesmo que pode designar tanto as lendas imortais do rock quanto alguém famoso ou em alta no momento. Aos poucos os artistas de rock deixaram de ser o padrão para os jovens, que se voltaram com muita ênfase para a cultura das ruas. As capas de revista mudaram, os assuntos de programas de TV mudaram e o rock está cada vez mais longe desse epicentro da cultura.

Esse impacto cultural passageiro é muito observável no modo como as tendências de lifestyle nos anos 70/80 se baseavam no rock’n roll e no advento do cinema marcante dessas décadas. Porém, podemos observar que se esvaiu qualquer relação saudosista na moda mainstream, em tempos onde Kanye West e Virgil Abloh são ícones fashion, e não Axl Rose e Mick Jagger.

Claro que também é errado acreditar que o rock hoje é, por si só, saudosista. Existem os mais conservadores que não abrem mão de defender a época de ouro do gênero, mas também há um grande número de bandas e artistas que se reinventam e fazem música de qualidade nos passos dos grandes astros do passado. Mas, feliz ou infelizmente, são movimentos efêmeros, ondas que vem e vão. Elas não se sustentam mais como a revolução que o gênero apresentava há 40/50 anos.

Talvez precisássemos de um grande astro do rock para falar o que pensa e deixar um pouco de lado essa caixa politicamente correta dos grandes artistas. Falta hoje, na indústria da música, elementos que o rock eternizou, como a atitude por exemplo. Tudo parece muito plástico e maquiado para evitar os problemas com faturamento e má repercussão. Resumidamente em uma outra palavra: autenticidade. É inegável que isso o rock trouxe, e muito, para a música.

Não adianta insistir em surfar no saudosismo: o rock como movimento cultural, artístico e influenciador já morreu. Restou o gênero musical, que respira por aparelhos. As contribuições imensuráveis que as lendas da música dessas décadas trouxeram são parte da história da arte, tanto quanto Bach ou Michelângelo. Mas o momento presente revela uma outra perspectiva, uma abordagem nova e moldada no rap, pop e EDM. O que vai restar disso daqui alguns anos? Difícil dizer. Podemos começar com a parte mais difícil, que é admitir que não teremos outros Beatles ou outra banda como Nirvana, por exemplo.

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