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ATENÇÃO: O texto abaixo NÃO contém spoilers do filme “Star Wars: A Ascensão Skywalker”

O desfecho da saga Skywalker estreou nos cinemas no último dia 19. As expectativas eram enormes: encerrar uma história iniciada em 1977, que cativou centenas de milhares de fãs por todo o mundo. Finalmente, depois de três trilogias, séries de TV, livros etc; a saga encontraria seu fim. 

Obviamente, há muito mais do que só um filme em questão. Envolve paixão, sentimento e um fervor quase religioso dos que acompanham a série de filmes. Mas e quando um desfecho tão aguardado como esse desagrada os fãs? Pior ainda: será que os próprios fãs são culpados pela conclusão de “Star Wars”?

Primeiramente, não é justo culpabilizar a devoção dos fãs, que causa toda essa expectativa para um filme. Todos nós gostamos de coisas diferentes e amamos histórias que nos fazem sentir mais humanos e mais unidos.

Star Wars é uma dessas histórias. O sucesso é mais do que justo. A saga é cativante, desde sua trilogia inicial, passando pelas “prequels” de George Lucas, no início do século, e agora pela nova trilogia nas mãos da Disney. Sejam os personagens, a trama, os cenários, as batalhas de sabre-de-luz, tudo em Star Wars brilha aos olhos.

Contudo, devido às decisões criativas apresentadas no Episódio VII e especialmente no Episódio VIII, uma parcela dos fãs cruzaram o limite entre admiração e fanatismo cego.

Se em “Star Wars: O Despertar da Força” (2015) o diretor J.J. Abrams usa da nostalgia para criar uma nova história, fazendo o público criar apreço pelos personagens inéditos, em “Os Últimos Jedi” (2017) o diretor Rian Johnson desmistifica os absolutos da trama, desconstruindo seus mitos e gerando novas dúvidas. Parte das críticas para o Episódio VII vieram do fato do longa ser uma “reciclagem” do Episódio IV, de 1977. É verdade, mesmo que intencionado por Abrams, que o filme aposta em uma empatia primeiramente dos fãs antigos que conhecem a história original e, em seguida, dos novos espectadores que nunca tiveram tanto contato com Star Wars. Funcional? Sim. Polêmico? Um pouco, mas aceitável.

Porém, é no Episódio VII que a comunidade “nerd” se rebela contra a Disney e o diretor Johnson. As novas direções da trilogia envolviam desapego de muito de que era estabelecido como um mito na fanbase. Isso gerou uma cisão muito profunda entre os que amaram e odiaram “Os Últimos Jedi”. Não é para menos, quando a primeira cena do filme mostra Luke Skywalker jogando para longe seu icônico sabre de luz. Um olhar desatento para o resto do filme pode entender isso como um escárnio, e até uma heresia. Funcional? Depende. Polêmico? Muito. E não parou por aí.

Alguns fãs descontentes com a nova personagem Rose, interpretada por Kelly Marie Tran, foram ao Twitter da atriz destilar ódio e preconceito. Os xingamentos passaram pela xenofobia e pela misoginia. Lamentavelmente, a atriz se posicionou contra os insultos e isso apenas piorou a situação. Além disso, diversos comentários na internet ameaçavam Johnson, Kathleen Kennedy (presidente da Lucasfilm) e outros membros do elenco. O ódio estava difundido na comunidade, e era difícil compreender como fãs de uma história como Star Wars poderiam ser preconceituosos, machistas e intolerantes. O ressentimento durou anos, até a estreia de “A Ascensão Skywalker”.

Se os diretores e roteiristas envolvidos na produção viram na recepção da comunidade ao Episódio VIII um sinal vermelho e mudam a história para se adequar às vontades dos mais radicais, no que se torna a franquia como um todo? Por qual razão uma história baseada em rebeldia contra um sistema opressor, um conto maniqueísta do bem contra o mal, cederia ao lado negro da Força? São dúvidas que muitos fãs hoje se perguntam. A conclusão da saga deixou desamparado tanto os fãs de “Os Últimos Jedi”, pois viram muito do que foi construído ali deixar de fazer sentido, quanto os seus haters, quando descobriram que tentar consertar o “erro” só deixou tudo ainda pior.

O questionamento a ser ponderado para 2020, não só por fãs em geral, mas pelos estúdios e grandes produtores de Hollywood, é se a internet deve ter voz nas decisões criativas de um filme. Não parece justo abrir mão e desrespeitar as escolhas de alguém que trabalhou no seu time, e em seguida mudar tudo e fazer as coisas do seu jeito. Essa foi a sensação com o Episódio IX. Por mais que a própria Disney não admita, a falta de planejamento foi palpável. Passa a impressão até mesmo de que não se sabia como essa história iria terminar desde o início da produção do primeiro filme. Faltou coragem, sobrou desrespeito.

E agora, o ciclo se completa, pois a internet já está repleta de espectadores reclamando, xingando e esperneando sobre “A Ascensão Skywalker”. Segundo J.J. Abrams, que dirigiu o mais novo filme, eles [o estúdio e os produtores] sabiam que toda decisão tomada no final seria questionada pelos fãs, pois é uma história muito grande e isso provoca reações diversas nas pessoas. Concordo, é impossível agradar a todos, ainda mais se tratando de Star Wars. As pessoas nas redes sociais vivem insatisfeitas, nunca se impressionam e se recusam a gostar genuinamente de algo novo. Mas isso soa como uma grande hipocrisia da parte de Abrams. Se é impossível agradar a todos, porque tentou? Para o bem ou para o mal, o que ditou o desfecho da saga foi o fan service. É a rendição da Disney perante a insatisfação dos fãs. Isso é quase que dizer: “engulam isso aí então, do jeito que vocês queriam”.

Pode ser que estamos vivendo tempos onde a reação das redes ditam não apenas o padrão da indústria, como sempre aconteceu, mas também as próprias decisões criativas de um filme. Tarefa essa sempre delegada aos produtores, roteiristas, diretores e consultores, agora vai ser delegada também à internet. Mais precisamente às suas divisões mais sórdidas. O esgoto. Lá onde se esconde os preconceituosos e os imundos cheios de discurso de ódio. O precedente foi aberto, e agora é questão de tempo até isso afetar cada vez mais filmes e histórias diferentes, na TV ou no cinema. O que o futuro reserva para a sétima arte, se depender dos grandes estúdios, pode ser uma bola de neve de decisões ruins, mas que no final das contas paga o pedágio aos trolls que vivem escondidos na internet, como na lenda antiga. Decepção de fãs não pode ser transformada em combustível para desrespeito.

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