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Será que podemos ser nós mesmos na internet?

Se tudo gira em torno da nossa saúde mental, por que cada vez mais questões como política do cancelamento vem sendo alimentadas pela maioria? Será que não percebemos o quão incoerente isso é?

O que percebo com esses movimentos das mídias sociais de hoje em dia é muito mais uma questão de projeção do que políticas de correto ou errado. A verdade é que ninguém está de fato preocupado quando você está sendo correto, mas sim quando você aparentemente não está. Mas o que é o correto em meio a tantos achismos?

São tempos difíceis para todos e questões como irresponsabilidade perante a tudo isso realmente nos revoltam e abalam, principalmente quando estamos aderindo à todas mudanças e tentando nos readaptar da melhor maneira. Contudo venho percebendo que há muitas pessoas que estimulam não só o bom senso da no momento de informar, mas também optam por um caminho  de ruptura, então voltamos ao cancelamento.

Falar sobre isso em um momento de tanta fragilidade pra todos é algo bem difícil, pois projetamos sob tudo às nossas experiências e expectativas. Sinto que muitos dos que criticam são pessoas que não consolidam todas as suas próprias expectativas e então acabam por projetá-las no outro, pois assim se torna mais fácil de externá-las.

Pra mim, dentro do contexto atual há um tempo, diversas coisas vem sendo como divisores de águas, tudo começou no cenário político e se estendeu agora perante a situação atual, porém se falarmos dessas questões dentro de outros cenários como por exemplo a moda, acredito que fique até mais explicativo.

Hoje em dia as pessoas se acostumaram a ter acesso a vida do outro de forma muito mais fácil, principalmente quando o outro é um “digital influencer” que está lá compartilhando muito da sua rotina diária. Porém o que precisamos ressaltar é que ainda que a gente lote os stories de “pontinhos” isso tudo ainda é uma parcela da nossa rotina, tudo que realmente vivemos e fazemos, quase nunca é do conhecimento de ninguém, além de nós mesmos. Então quando você percebe que já se tornou comum pessoas opinarem sobre a vida do outro, sobre o quanto ele está gastando com artigos de luxo ou não, com a questão de estar adquirindo tais coisas dentro de uma crise, percebemos o quão tudo tem tomado proporções gigantescas e completamente invasivas.

E há quem diga que você está mudando de opinião, que antes você não gostava de vestir as mesmas coisas, que se você está vestida de tal marca não pode estar falando sobre tal assunto, tudo se tornou gatilho para que as pessoas opinem sobre o que estamos fazendo.

Percebo o quão abusivo tem se tornado esse caminho para quem trabalha com as mídias e pra quem precisa de certa forma expor sua vida e imagem a todo momento, pois além disso tudo o cenário é de extrema competição, onde acontece praticamente um leilão de quem da mais, de quem mostra mais, de quem tem mais, e tudo isso é completamente triste, vazio.

E sem perceber o quão incoerente tudo isso é, ao mesmo tempo que esse público quer praticar a política do cancelamento esperando aflitos por qualquer mero erro alheio, também seguem alimentando o caminho da competição, onde cada vez menos se mostra quem se é e cada vez mais se tornam fantoches disso tudo. Se esvazia o significado e intensifica a competição.

E eu me pergunto onde está a valorização pelo propósito de marca, pelas questões não tangíveis e invisíveis a esse olhar midiático da coisa? O público sem notar tem transformado esses rostos (digitais influencers) em projeções delas próprias, onde dizem querer pessoas que falem sobre a sua “vida real”, mas a criticam fortemente se o conteúdo fugir às suas expectativas.

Vejo muitos desses que lidam mais estreitamente com isso, se tornando realmente outdoors de marca onde existe de certa forma a necessidade de serem o DNA daquela marca mas devido à isso, estão se desvinculando das coisas pelas quais acreditam e compactuam.

As mídias tem um poder enorme sob o contexto atual e isso não é dúvida pra ninguém, porém fica minha observação do quão abusivo tudo isso tem se tornado pra todos nós, e a necessidade de percebermos o quão grande pode ser o impacto disso tudo sob nós mesmos e um desejo de que notemos que autenticidade vai muito além disso tudo, que autenticidade não é só sobre ser uma pessoa o tempo todo, autenticidade é ter liberdade de mudar de opinião sem ser acusado de ser uma farsa, é ter liberdade de ser coerente com as nossas crenças e valores mesmo que elas mudem.

O caminho que criei aqui é mais para que possamos visar essas coisas que normalmente estão intrínsecas no meio disso tudo e que por muitas das vezes passam despercebidas.

Acho que a partir do momento que temos claro a nossa essência e respeito com o que acreditamos, praticaremos o bem dentro ou fora de um aplicativo. Afinal a vida acontece nas entrelinhas e o que é editado sabemos que pode ser moldado. A verdade é que por trás disso tudo está nossa real identidade, e disso só cada um pode ter certeza do que se é. Eu realmente acredito que não há nada que sustente máscaras por muito tempo, e todos os últimos acontecimentos só tem nos provado isso.

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